quero manter esse presente

Wednesday, May 12, 2010 by

Alguns loucos dizem que a tendência humana é atingir o ápice da rebeldia e contestação na juventude, em torno dos 15, 20 anos. E, na idade adulta e na velhice, tudo se acalmar. Assim ocorreu com a banda Titãs. Quem ouvia suas músicas nos anos 80 como “Polícia”, “bichos escrotos”, nunca poderia imaginar que hoje eles seriam essa banda romântica, que não critica, apenas enaltece o amor, que não contesta, apenas finge que não vê. Só digo que não quero que essa tendência se mantenha na minha vida. Será possível ter o amor e a rebeldia juntos numa só pessoa?

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digno de um mestre

Friday, December 25, 2009 by

No momento em que a porta do ônibus foi fechada e o motorista engatou a ré, lembrei que havia esquecido o livro dentro da mala do bagageiro do ônibus. Fosse qualquer outra pessoa, isso não faria diferença, mas como eu simplesmente não consigo dormir em viagens, por mais longas que sejam, não tinha nada para fazer a não ser apreciar o caminho monótomo e ouvir os 30 mp3 do meu celular. Quando terminei de ouvir todas as músicas, procurei uma estação de rádio audível.

“nenhuma estação disponível”

“nenhuma estação disponivel”

No meio do caminho, era certo que não haveria sinal de rádio nem de civilização por perto. A quase uma hora do fim da viagem, encontrei uma frequência. Percebi que era rádio gospel, mas não importa, apenas ouvir a rádio não me  significaria tornar-me crente. Estava sendo transmitido um programa no qual um médico tirava as dúvidas das pessoas que ligavam para lá ao vivo. Boa intenção, não fosse o médico ser péssimo. Tinha uma voz horrível. Salvei, no celular, um exemplo disso: após uma moça queixar-se de dor não-sei-aonde, após fazer quimio para tratar um câncer no ovário e reclamar que tinha perdido peso após o tratamento…

-A senhora já mediu sua frequência cardíaca?

-Hein?

-A senhora já contou com um relógio quantas vezes seu coração bate por minuto?

-Nunca tentei.

-Então tenta. Conta quantos batimentos tem. Se bater 100 ou mais a senhora tem hipertiroidismo.

-Tenho o quê?

-É um negócio da tireóide que emagrece.

Com esse diagnóstico digno de um mestre da medicina, a moça agradeceu ao médico, a Deus e desligou o telefone. E o médico prosseguiu:

– Próximo??

– Alô! Doutor, eu não quero te perguntar nada. Só quero agradecer a Deus e a você pela sua grande sabedoria. Que Deus ilumine seu caminho e continue ajudar as pessoas.

– Obrigado! Próximo?

(sem resposta)

– Vamos agora ouvir uma canção. Quando alguem ligar para nós, interromperemos a música e voltamos ao programa.

Obvio que era música gospel. Foi uma das poucas vezes na minha vida que ouvi uma música desse tipo até o fim. Sim. Ninguém ligou para lá, embora eu tenha esperado muito ouvir como seria sua próxima resposta. Começou um tal de “terço”. Não aguentei e mudei de rádio. Fui direto na “pop rock” e consegui aproveitar o final de  “beatle george”.

rock na veia

Friday, April 3, 2009 by

Estação barra funda do metrô de são paulo, tarde de sábado. Pra quem devemos perguntar? Vejo um cara de uns cinquenta anos, com um all star no pé, rugas na testa e calça jeans surrada. Penso  “um cara dessa idade, com um all star no pé, só pode ser gente boa”. 

– Como faço pra ir a Santo Amaro??

– Vamos comigo! Estou indo para o Morumbi, duas estações antes. Mas perae: praonde vocês querem ir?

– Para o Credicard Hall, comprar ingresso.

– Qual show?

– Pro show do kiss!

– Poxa, que legal!!Eu fui fã da banda na minha adolescência, minha terceira namorada também gostava…

Chegou o trem. O papo continuou lá dentro. Ele descrevia os grafites nos muros da linha de trem, falou do filho dele, de 11 anos, que curte hip hop, nos convidou para uma exposição internacional de grafite que está acontecendo em são paulo, elogiou o traseiro da moça ao lado…

– Ou, de onde é voces são hein?

– Mogi. Mogi das Cruzes.

– Mogi!!Lembro muito bem. A gente pegava trem e ia até lá roubar cogumelo. Cês sabem pra quê né?Mas era foda, tinha um gosto de merda de vaca pa caraio…a gente colocava leite condensado  pra tirar o gosto do chá…dava um barato legal, mas eu não recomendo hoje em dia.

Quis perguntar o porquê, mas os olhares desconfiados dos passageiros me obrigaram a mudar de assunto. Nem lembro o que eu falei naquela hora. Chegando numa estação, onde descemos para fazer baldeação, e lá ele comecou a falar com uma garota. Entramos no outro trem, ele sentou com essa nova amiga, e já despediu da gente, para ficar a sós com ela e exercitar as técnicas xavequeiras dos anos oitenta. O trem estava lotado. Não fosse a vista da marginal pinheiros, com a Rede Globo, ponte estaiada, shopping cidade jardim, preferiria estar sentado. Na estação morumbi, não ví nosso novo amigo desembarcar, mas, subitamente, antes de a porta ser fechada, ouvi um grito da plataforma:

– É rock’n roll na veia! O resto é tudo lixo!

Não preciso descrever meu rosto naquele momento, nem o medo de sermos massacrados lá dentro. Quem anda de trem sabe: nunca se deve falar mal de corinthians e de pegode lá dentro. Fazer isso é assinar uma sentença de porrada. Fingimos que não era conosco, assim ele se assemelhou a um louco qualquer. A um desses loucos que vive gritando “rock’n roll” nas estaçoes de trem e metro.

Voltei de são paulo com três ingressos na mão e uma boa história pra contar.

Chupa essa manga

Thursday, January 22, 2009 by

Era uma vez um Renato. Genial, no mínimo. Sabem o “Retórica Vazia”? Ele que criou. Foi aí que eu, intrometido, convidei-o a convidar-me para escrever no blog com ele. E assim foi. Renato, conhecido por aqui como Antonomásio, inaugurou este lugar com os quatro primeiros textos (veja o “sem título” de 11/08). Depois, não teve depois.

Renato só escreve quando está triste. Isso agora é difícil, ainda mais com um Playstation 3, uma Sandra Mara e um elogio do professor de anatomia. Em verdade, em verdade vos digo que Renato não gosta do que escreve. O fato é que ele só gosta do que escreve quando escreve que não gosta do que escreve.

Nesse meio tempo, além de mim postando aqui no blog, teve também o René (dirtyfurlan) injetando rebeldia juvenil em contraste com minhas angústias infantis. O Renato já nos ameaçou várias vezes abandonar de vez o Retórica Vazia. Assim, me antecipo e deixo esse blog nos dedos do safado.

(Em segunda pessoa, pois sei que você está lendo: ) Agora, meu filho, você vai ter que se virar. Espero ver trechos da grande merda por aqui. E muito obrigado mesmo por me iniciar nessa!

Ah! (como quem só lembrou de falar agora), indico aqui o meu blog, que começou hoje: cloacapublica.wordpress.com E não se esqueça de indicar para os seus amiguinhos.

esse tal de destino

Friday, January 9, 2009 by

“tá tudo escrito. deus escreveu tudo, se for pr’eu morrer dia tal, vou morrer nesse dia, não importa o que eu fizer e onde estiver”

Foi mais ou menos isso que o amigo do mau pai disse. Esse assunto de destino me fez refletir, e concluí que o que esse pensamento  é um absurdo. Explico. Essa idéia é capaz de deixar  as pessoas menos ansiosas, mas há um porém: se meu destino tá todo escrito, porque devo me esforçar?Isso torna as pessoas passivas em relação a vida. Não se revoltam, apenas aceitam, com o simples argumento que é o “destino”.

Então se acha que deus, além de criar o homem a partir do nada, gasta horas e horas escrevendo o destino de todas as pessoas do mundo? A idade com que perderá a virgindade, onde vai trabalhar, quando ficará doente, e o principal: quando vai morrer. Então as guerras, o nazismo, os crimes foram tudo programados com antecedência por esse deus que tanto os ama? É claro que é bom pro sistema, evitando a contestação, os pobres culpam o destino pela miséria, os doentes, pela doença não curada, e não os verdadeiros culpados. Provavelmente deus existe, mas ele não fica brincando de destinos. Você cria seu destino. Uma coisa que você faz agora pode refletir no futuro, seja daqui a uma hora ou daqui a varios anos. Quando não conseguimos achar um culpado para algo, culpamos o destino. Diversas coisas não têm explicação, simplesmente acontecem. A religião colabora para iludir as pessoas sobre esse assunto. É que a maioria aceita o que a igreja diz – incluindo a teoria da predestinação – como uma verdade universal, mesmo se existirem provas científicas indicando o contrário. Ela sempre ocultará certas verdades. Sempre aproveitará da insegurança do ser humano, o que o leva a procurar alguma força maior para se sentir seguro, e a ingreja fantasia esse ser maior de acordo com o que convém a ela. A igreja nos explica com alegorias fictícias. Dualismo entre céu e infeno, deus e diabo, ou seja, o bem e o mal. Acontece que ela tenta explicar a maior dúvida da humanidade, o porquê de estarmos aqui.Mas essa é uma daquelas perguntas sem explicação. Simplesmente estamos.

Estreia

Wednesday, January 7, 2009 by

Hífen? Aí já são outros qüinhentos.

Duas carnes

Wednesday, December 24, 2008 by

“Não come isso não, cara. Eles entopem essas batatinhas de sal só pra gente chegar lá dentro morrendo de sede e comprar mais refrigerante. Aí enche a nossa barriga de coca só pra comer menos carne”. O Augusto até que tinha razão nessa. Esperamos mais uns dez minutos nas mesinhas do lado de fora da churrascaria, resistindo aos aperitivos que os garçons traziam só pra arrebentarmos no rodízio depois. Entramos. Muita gente chique e tal, mas todos uns verdadeiros glutões. Não apoiavam os cotovelos sobre a mesa, mas dava pra ver suas bochechas estufadas pela carne dentro da boca. Em frente o lugar onde estávamos sentados, um casal. Uma mulher muito bonita e com luzes no cabelo, aparentando ser bem jovem. Do lado dela o marido, um pouco mais velho que a esposa, mas os sinais típicos de que era um fazendeiro rico deixavam-no com aspecto mais velho. Atrás da gente algumas loiras que eu não pude ver direito pra não quebrar o pescoço olhando, mas meu amigo Augusto tratou de descrever pormenorizadamente o corpo de cada uma.

“Maçã do peito, senhor?” O garçom só podia estar de brincadeira comigo. Carne de segunda eu já como no restaurante da faculdade, uai. “Faisão?” Nunca. O nome é só pra enganar, é a mesma coisa que frango. Enquanto eu ainda não havia colocado nenhum pedaço no prato, o fazendeiro na nossa frente rejeitou só o abacaxi assado. Sua jovem esposa olhava, com desgosto, o marido pançudo pedindo “Põe mais cupim, faz favor”. Mostrando isso para o Augusto, eu disse cupim definitivamente não compensa numa churrascaria rodízio. Como a peça é grande demais, eles tentam te enfiar um monte de carne de uma só vez. Sem contar que tem gordura demais pro meu gosto.

Quando chegou o espeto trazendo coraçãozinho de frango, meu amigo só deu o comando “opa, pode descer tudo” sob a minha reprovação: cara, pensa no tanto de frango que morreu pra você chegar e comer só o miocardiozinho deles. No seu prato aí tem umas doze vidas. “Ah, vai falar que você tá com pena dos animais? Se fosse assim você estaria comendo só pãozinho com alho e queijo” – retrucou Augusto. Você não entende, cara. É simbólico. O coração representa muito para as galinhas. Seria como se o seu assassino descartasse seu corpo e só cortasse o seu pau fora. Mostrar isso na tv ia ser muito mais chocante do que mostrar você morto ensangüentado. Eu até que tinha razão nessa.

Peraí, Augusto, você não tá colocando arroz no prato não, né? “Uai, que que tem, cara?” Que que tem? Nós já estamos pagando doze e noventa fora os dez por cento pra você vir aqui no Slaughert´s e comer arroz? Você só pode estar de brincadeira. “Ih, meu filho, você não pode falar muito não. Vi você colocando um tantão de alface”. É, mas alface não enche. “Ai ai ai. Depois dessa melhor a gente pedir a conta. Não agüento comer mais nada”. Certeza? Nem o sorvete, que é de graça? “Opa, de graça eu ainda dou conta. Vou querer um de creme”. Creme? Tá louco? Comeu um monte de picanha berrando de mal passada (coisa de macho) e vai pedir sorvetinho de creme? Isso é muito feminino. O meu vai ser de flocos, e sem calda, garçom.

Trinta e dois e setenta e oito, disse o caixa com voz gentil. Moço, então cobra dezesseis e trinta e nove aqui pra mim que o resto meu amigo já te paga. “Ó, eu também não tenho trocado não.” Vocês não querem pagar tudo de uma vez e depois se acertam depois? – disse o caixa com voz não tão gentil. “Não, não queremos. Cobra dezesseis e cinqüenta aí do meu amigo e o resto eu pago depois” – respondeu o Augusto, já arredondando pra menos a sua dívida. Com a cara feia e já sem nenhum resquício de gentileza, o caixa ofereceu “aceitam um cafezinho, cortesia da casa?” “Dois, faz favor.” Não, Augusto, eu não bebo café. “Eu sei” –  disse meu amigo.

Problematizando

Friday, December 19, 2008 by

E se a Caroline Motta tivesse pichado o muro da tua casa?

E se as enchentes fossem na Paraíba?

O melhor de estar em férias não é estar em férias. É não estar em aula.

Digressões

Friday, December 19, 2008 by

Resolvi visitar meu melhor amigo, o Magno. Ele mora na biblioteca municipal. Chego e o encontro sentado com um livro no colo e fones nas orelhas. Em vez de um abraço de amigos que não se vêem há cinco meses, tudo o que recebo é um aperto de mão, muito sincero, entretanto. E aí, Inclusive, como vai? Cara detesto esse país (apontando para um mapa da Irlanda desenhado no livro). Mas esse cara (William Butler Yeats, o autor) me faz sorrir. Mas vamos para o terceiro andar, lá tem bastante silêncio. No caminho, uma bíblia aberta sobre a mesa ao lado da escadaria. Magno dá uma olhada nela e comenta, não sei se comigo ou com si próprio: Eclesiastes. A ciência prova a existência de Deus.

Algumas idéias depois, fomos tomar um suco na lanchonete dos chineses. Antes de entrarmos, o Magno me pára na porta e diz cara, tem uma novata trabalhando aí dentro. Não se atente para o quanto ela é bonita porque ela é comprometida. Dois de melancia, por favor. Ele então comenta algo sobre ir morar na Alemanha passando antes em Curitiba pra ter um “flash de civilização”. E provou pra mim que um copo é um ser vivo (o instinto só acontece nos seres animados. Se eu deixar um copo cair ele se espatifa no chão, e isso é um instinto). Paguei a conta enquanto Magno simulava um sotaque forçado pra confundir a chinesinha do caixa.

Vem cá, Inclusive, quero te apresentar um amigo meu. Toc toc toc. Abriu a porta um homem com cara de quarenta e poucos anos. Usava óculos escuros grandes e uma camisa igual a que o professor Girafales usou em Acapulco. Uai, cês dois é irmão? Não, não – corrigiu o Magno – é só a nossa barba que é igual. Pela porta entreaberta vi uma senhora de pijama em pé, de frente para a TV, ligada num daqueles canais cristãos que transmitem missas. Alex, esse aqui é o meu amigo Inclusive. Inclusive, esse é o Alex. Entramos. O tal Alex pegou um cigarro e pôs na boca, sem acender. Perguntou onde eu morava e disse que gostou de mim. Ofereceu um chimarrão em plena Minas Gerais. Estranhando, rejeitei. Um café, então? Não, obrigado. Não gosto de bebidas quentes, sempre queimo a língua. Ah, então um tereré cê vai querer. Antes que eu tivesse a chance de responder, o sujeito pegou o chifre e a erva e colocou em cima da mesa. Mãe, cadê a água gelada? – perguntou, abrindo a geladeira. Uai, filho, eu estava benzendo as garrafas ali na sala. Pega, aqui tem uma. Ainda com o cigarro apagado entre os lábios, o tal Alex perguntou se eu era crente. Como neguei, ele despejou um pouco da água benta no chifre. Ah, então tá beleza. É porque os crente não aceita muito essas água não. Mas quantos anos cê tem, Inclusive? Só 22? Pouco demais, tá nascendo ainda. Eu já tô criado: já tive um enfisema e uma hepatite no fígado por conta de bebida. Nisso o Magno falou “ Você é um cara bom, Alex. Seu problema é o alcoolismo”. O alcoolismo e daqueles cigarrinho que não pode, né? – respondeu rindo o tal Alex.

Meia hora depois, já de fora da casa, perguntei Magno, de onde surgiu esse cara? Com os olhos arregalados ele respondeu “Entropia, amigo. Essa palavra explica tudo”.

Consulta

Wednesday, December 10, 2008 by

Quadro clínico: Paciente M.L.S., 19 anos, sexo feminino. Ela alega tensão e  insônia, porque o seu amor simplesmente não existe. M.L.S. também alega frigidez e excesso de preocupações emocionais. Seu maior medo é nunca conhecer um garoto que fornicará com ela apaixonado. Pincelou sobre seu passado e presente: ela foi uma atriz “underground”, e hoje ela faz trabalhos de fotografias artísticas. Tentou ajuda com a religião, passando a freqüentar assiduamente um templo Hare Krishna, mas não obteve resultado: continua pesada.

Diagnóstico provável: hipersensibilidade emocional tipo II

Tratamento: Lexotan 6mg, duas vezes ao dia, junto as refeições; seções psiquiátricas semanais por no mínimo três meses.

Médico especialista: Dr. Flávio Basso.